Quando a escola se conecta
22 de outubro de 2026
Cinco dias de escuta com adolescentes de uma escola pública de Minas Gerais mostram como a juventude vive e interpreta a internet.
Pediram que cada estudante dissesse o nome, a idade e um sonho. A resposta veio rápida: “Sonho? Ah, não”, “É difícil”. A cena aconteceu no primeiro dia de uma semana de oficinas do ConectAí, em uma escola pública de Contagem, em Minas Gerais, e conduz a reflexão que atravessa o relatório Quando a escola se conecta: narrativas etnográficas de ensino-aprendizagem de cidadania e letramento digital com adolescentes. Nas palavras da equipe de pesquisa: “Resta refletir a quem é dado o direito de sonhar.”
A publicação reúne os registros de campo e as análises de uma pesquisa com perspectiva etnográfica, feita com uma turma de 19 estudantes do 2º ano do Ensino Médio entre 29 de setembro e 3 de outubro de 2025. Ela fecha a quarta etapa do projeto ConectAí: educação e segurança como trend, desenvolvido pelo IRIS entre 2024 e 2025 em escolas públicas, com financiamento do TikTok e apoio institucional do grupo de pesquisa Além da Tela, da UFMG. As outras etapas foram a criação de materiais didáticos inspirados em Paulo Freire e bell hooks, as formações no Ensino Médio e a preparação de adolescentes embaixadores que ensinam seus pares. Ao todo, foram dez formações, cinco conduzidas pela equipe e cinco co-construídas com as e os embaixadores. A etnografia acompanhou a última formação conduzida pela equipe.
O que a turma mostrou
- Uma relação ambígua com a própria internet. Quando perguntaram quem já considerava fazer um uso seguro e saudável da rede, apenas 2 das 19 pessoas levantaram a mão. Nos cartazes “boto fé” e “nada a ver”, a turma listou benefícios (diálogo, aprender coisas novas, ajudar outras pessoas) e problemas (discurso de ódio, exposição da vida privada, desinformação, comparação) com vocabulário próprio.
- A pressa como regra. O pedido para acelerar um vídeo de seis minutos, a busca por definições de uma palavra só e o uso de inteligência artificial até para “deixar as palavras bonitas” em uma tarefa sobre as próprias opiniões mostram como o imediatismo atravessa o estudo.
- Segurança digital pela metade. A turma conhece os princípios de uma senha forte, e a maioria reaproveita a mesma senha em todas as contas. Só uma pessoa usava autenticação de dois fatores.
- Racismo e violência de gênero no cotidiano online. Todas as pessoas da turma já tinham visto postagens que atacam alguém por raça, cor ou etnia. As meninas, mais de 70% do grupo, relataram assédio em jogos, exposição de imagens sem consentimento e um caso de difamação por perfil falso, e contaram como se mostram fortes diante dessas investidas.
- Bem-estar sob pressão. Comparação com corpos e rotinas, noites mal dormidas e horas perdidas nas telas apareceram a semana inteira. Toda a turma reconheceu dormir mais tarde do que pretendia por causa do celular ou dos jogos. Parte dela trabalha à tarde, o que mostra como a classe social molda o tempo livre e o descanso.
Por que este relatório importa agora
O debate público sobre adolescentes na internet ganhou força com o debate sobre a adultização de crianças e adolescentes, em agosto de 2025, com a proibição do celular nas escolas e com a entrada da inteligência artificial na rotina de estudo. Essas discussões costumam se formar sem a escuta de quem vive o cenário todos os dias. O relatório oferece evidência qualitativa e situada. A equipe registrou celulares em uso em sala de aula em todas as escolas visitadas, mesmo com a proibição, e viu estudantes recorrerem à IA para organizar as próprias ideias.
Para a governança da internet, a escola é um território decisivo, porque ali se encontram as plataformas, as regras e a vida de quem as usa. A conectividade significativa reúne dispositivos adequados, conexão de qualidade, habilidades, segurança e participação. Políticas de educação midiática e de internet nas escolas ganham precisão quando partem de como adolescentes de escolas públicas vivem a conexão no dia a dia.
Escola pública, Minas Gerais
O campo foi uma escola ampla e bem gerida, em região residencial de Contagem, com poucos equipamentos culturais e espaços de lazer no entorno. Segundo o Projeto Político-Pedagógico de 2022, a escola tem 964 estudantes, 64% pardas, 8% pretas e 25% brancas. A participação na pesquisa foi voluntária, e a composição aproximada do grupo foi de mais de 70% de meninas e cerca de 60% de pessoas negras. Em contextos de hipervulnerabilidade social, a exposição a violências cresce, dentro e fora da internet. O relatório se mantém no que observou, uma comunidade específica, e a própria equipe explicita os limites de uma etnografia de cinco dias restrita ao ambiente escolar.
O que você encontra no relatório
- Apresentação e introdução do ConectAí e da pesquisa.
- Metodologia: etnografia em sala de aula, marcos teóricos (Paulo Freire, bell hooks e Michael Angrosino) e instrumentos de registro. Para proteger os dados das pessoas adolescentes, não houve gravação de áudio ou vídeo, as e os estudantes assinaram termo de assentimento e seus responsáveis, de consentimento, e o texto usa nomes fictícios.
- Cinco capítulos de campo, um por dia de oficina: infraestruturas digitais e direitos humanos online; cuidados digitais para a segurança individual e coletiva; um uso da internet sem violência; saúde mental e bem-estar online; adolescência e laço social na cultura digital.
- Links para os roteiros das atividades e para o protocolo de cuidados do projeto.
- Uma conclusão com os aprendizados da experiência e o chamado por políticas públicas comprometidas com o bem-estar e a segurança de adolescentes e jovens brasileiros na internet.
O relatório deixa dois aprendizados centrais: há muito a trocar com adolescentes sobre internet e tecnologia, e uma educação midiática crítica, afetiva e emancipatória dentro da escola é possível, como a experiência do ConectAí demonstrou na prática. É uma leitura para quem atua em educação básica, gestão escolar, pesquisa, formulação de políticas públicas, organizações da sociedade civil e plataformas digitais.