Criptografia: Como ela pode proteger jornalistas e a liberdade de imprensa
Escrito por
Luiza Dutra (Ver todos os posts desta autoria)
22 de junho de 2026
A criptografia é uma ferramenta que ajuda usuários da Internet a manter seus dados e suas comunicações online seguros e privados. Ela é fundamental para proteger atividades digitais do dia a dia, como transações bancárias e compras online, evitando o roubo de informações sensíveis em vazamentos de dados e garantindo que mensagens privadas permaneçam realmente confidenciais.
Além disso, a criptografia é essencial para proteger tanto a liberdade de expressão quanto a privacidade.
| O que é criptografia?
Criptografia é o processo de “embaralhar” informações para que só possam ser lidas por quem tem a chave certa para decodificá-las. A criptografia de ponta a ponta (End-to-End, E2E) garante o maior nível de segurança e confiança, porque, por design, apenas o destinatário da mensagem possui a chave para desbloqueá-la. Nenhum terceiro deve ter acesso a essa chave. |

Para algumas comunidades, como a de jornalistas, a criptografia é fundamental para proteger pessoas e garantir a liberdade de imprensa.
Criptografia e a Segurança de Jornalistas
A criptografia é uma ferramenta essencial para jornalistas. Se eles não puderem se comunicar com seus colegas e suas fontes de forma confidencial, não conseguem exercer seu trabalho com segurança. Da mesma forma, se não conseguirem proteger o anonimato de suas fontes, essas pessoas podem não se manifestar, e o público acabará pagando o preço.
Conexão segura com fontes: Algumas fontes compartilham informações sensíveis sobre instituições ou dados pessoais apenas se os jornalistas garantirem que sua identidade será protegida. A criptografia de ponta a ponta permite que os jornalistas construam uma relação de confiança com suas fontes.
Proteger a integridade da informação: Jornalistas precisam sinalizar de forma confiável aos leitores que produziram conteúdo confiável e garantir que ele corresponda ao que seu público de fato consegue ver online.
Protocolos da internet, como o HTTPS, são fundamentais para proteger dados em trânsito entre veículos de comunicação e seus públicos. Ao criptografar essas comunicações, eles reduzem riscos de interceptação e manipulação de conteúdo. Essa proteção também tem implicações diretas para a liberdade de imprensa: quando comunicações não podem ser facilmente monitoradas ou alteradas, torna-se mais difícil para terceiros de censura bloquear o acesso a notícias ou interferir na circulação de informações.
Proteção de ataques: Existem muitos casos de jornalistas e veículos de comunicação que têm frequentemente seus dispositivos e plataformas online hackeados e vigiados/invadidos por governos e atores do setor privado devido às suas reportagens. Um exemplo conhecido é o caso em que a Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) teria invadido o sistema de comunicações internas da Al Jazeera. Além de ataques digitais, jornalistas enfrentam ameaças como assédio online, doxxing (coleta e divulgação de informações pessoais na internet) e perseguição. A criptografia de ponta a ponta ajuda a proteger suas comunicações contra vigilância e interceptação de dados e informações por terceiros.
Responsabilizar governos e instituições: Um importante componente do jornalismo é a sua capacidade de garantir que pessoas e instituições de e no poder prestem contas por suas decisões e ações. Para isso, é necessário que jornalistas possuam ferramentas de segurança digital que impeçam agências de inteligência e persecução penal – nacionais ou internacionais – de acessar e/ou alterar suas pesquisas, conversas e fontes.
Políticas de promoção do uso de criptografia forte protegem jornalistas em qualquer lugar: quando países adotam e apoiam a criptografia de ponta a ponta, eles protegem jornalistas tanto em suas próprias nações quanto internacionalmente, ao estabelecerem um padrão global de proteção criptográfica.
| A criptografia permitiu que jornalistas expusessem esquemas globais de corrupção O vazamento conhecido como Panama Papers teve início no final de 2014, quando uma fonte anônima entrou em contato com o jornalista Bastian Obermayer, do jornal alemão Süddeutsche Zeitung. Segundo Obermayer, a fonte utilizou canais criptografados para se comunicar e ofereceu dados com o objetivo de “tornar esses crimes públicos”. A pessoa afirmou que sua vida estava em risco, recusou-se a se encontrar presencialmente e condicionou toda a comunicação ao uso de ferramentas seguras.A investigação revelou um sistema global de evasão fiscal operado por um escritório de advocacia panamenho para seus clientes. O material analisado somava 2,6 terabytes de dados – cerca de 11,5 milhões de documentos – e envolveu aproximadamente 400 jornalistas, de mais de 100 organizações de mídia em mais de 80 países, que colaboraram para revelar as histórias contidas nesses arquivos. A criptografia ajudou uma fonte a se conectar com jornalistas Em 2015, o Intercept recebeu arquivos de uma fonte anônima por meio do SecureDrop, um software projetado para ajudar e permitir que denunciantes compartilhem informações para a mídia. Essa história revelou que a empresa Securus, uma companhia responsável por prover serviços telefônicos para mais de 2.200 prisões nos EUA, mantinha registros detalhados de todas as ligações realizadas por mais de 1.2 milhões de presos que usavam o serviço em 37 estados – incluindo horários, números discados, nomes dos presos e até gravações de áudios das chamadas. Esses dados eram rotineiramente vendidos para órgãos de segurança pública, incluindo conversas dos detentos com seus advogados, que deveriam ser protegidas pelo sigilo profissional. Essa revelação chocante só veio à tona porque uma pessoa com acesso aos arquivos conseguiu compartilhá-los com o Intercept por meio do SecureDrop. |
Por que o “acesso excepcional” não é a resposta
“Acesso excepcional” geralmente se refere à concessão de poderes a autoridades policiais e agências de inteligência para interceptar e acessar comunicações criptografadas — ou para obrigar empresas a fazê-lo em seu nome. Essa abordagem não apenas enfraquece a segurança na Internet, como também coloca jornalistas em risco, tanto no ambiente digital quanto fora dele, isso por quê:
- Fragilizar sistemas enfraquece a todos: qualquer ponto de entrada em um serviço seguro representa uma vulnerabilidade. O acesso excepcional coloca em risco informações e conversas privadas ao permitir o acesso por parte do governo e, ao mesmo tempo, criar brechas que podem ser exploradas por agentes mal-intencionados. Não existe “fechadura digital” que possa ser aberta apenas pelos “bons” sem que outros também possam explorá-la.
- A ausência de criptografia pode desestimular a publicação de conteúdos sensíveis: sem meios seguros para exercer seu trabalho, jornalistas podem deixar de investigar ou divulgar temas delicados diante do risco de retaliações, vigilância e assédio. Uma democracia saudável depende de uma imprensa livre, forte e independente, capaz de informar a sociedade sobre as ações de governos, instituições e empresas.
Recomendação
Proteger a liberdade de imprensa por meio da defesa da criptografia de ponta a ponta robusta, garantindo que jornalistas e o público possam utilizá-la livremente. A segurança digital é condição essencial para que jornalistas possam responsabilizar governos e instituições, produzir reportagens de interesse público, proteger suas fontes e contribuir para o fortalecimento de democracias saudáveis.
Saiba mais sobre como a criptografia impacta o jornalismo
Para mais informações, acesse o site do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) e acompanhe o perfil @pressfreedom no X.
A Internet Society também oferece recursos e treinamentos sobre criptografia:
Escrito por
Luiza Dutra (Ver todos os posts desta autoria)
Luiza Correa de Magalhães Dutra, doutoranda e mestra em Ciências Criminais pela Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul. Especialista em Segurança Pública, Cidadania e Diversidade pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Bacharela em Ciências Sociais pela UFRGS, com período sanduíche realizado no Science-Po Rennes, França, e Bacharela em Direito pela PUCRS. Pesquisadora.