Compreendendo a criptografia: sua relação com a segurança de vítimas de violência doméstica, violência sexual, perseguição (stalking) e tráfico de pessoas
Escrito por
Luiza Dutra (Ver todos os posts desta autoria)
22 de junho de 2026
Compreendendo a criptografia: sua relação com a segurança de vítimas de violência doméstica, violência sexual, perseguição (
stalking) e tráfico de pessoas
Para muitas vítimas de violência doméstica, sexual, perseguição (stalking) e tráfico de pessoas, contar com formas privadas e seguras de se comunicar e armazenar arquivos digitais é essencial para sua segurança. Da mesma forma, para profissionais e serviços de apoio a vítimas, utilizar ferramentas que priorizam a privacidade e a proteção dos dados é fundamental para garantir um atendimento seguro e responsável. Nesse contexto, a criptografia forte é parte central da solução.
A seguir, apresentamos alguns exemplos de como a criptografia de ponta a ponta e a criptografia de conhecimento zero (Zero-Knowledge Proof – ZKP) podem contribuir para mitigar os impactos da violência facilitada por tecnologias digitais.
- Planejamento de segurança e mudança de local: a criptografia de ponta a ponta pode oferecer um canal seguro para que essa pessoa organize planos e se comunique com pessoas do seu círculo de confiança – por exemplo, ao tentar se mudar e garantir moradia e apoio. (Isso é especialmente válido quando a pessoa agressora não tem acesso aos seus dispositivos ou às suas contas).
- Proteção da integridade das provas e da cadeia de custódia: o uso de criptografia de ponta a ponta e de criptografia de conhecimento zero no armazenamento e na transferência de evidências digitais para autoridades policiais, promotores ou outros profissionais do sistema de justiça ajuda a preservar a integridade e a autenticidade dessas provas. Quando evidências digitais são compartilhadas por meios inseguros ou estão sujeitas à interceptação, sua integridade pode ser comprometida, aumentando a probabilidade de que sua autenticidade seja questionada em processos judiciais.
O que é criptografia e como ela funciona?
Para garantir que as vítimas mantenham o controle sobre suas informações, é fundamental que nenhum terceiro tenha acesso às chaves que permitem visualizar suas comunicações ou dados armazenados na nuvem. A criptografia de ponta a ponta oferece o mais alto nível de segurança e confiança nas tecnologias de comunicação, pois, por definição, apenas o dispositivo de quem envia e o dispositivo de quem recebe possuem as chaves para decifrar a mensagem. Já nos casos em que dados sensíveis precisam ser armazenados com segurança online, o padrão ideal é a chamada criptografia de “conhecimento zero” (zero-knowledge ou no-knowledge). Nesse modelo, somente a pessoa titular da conta pode acessar os dados, nenhuma outra pessoa ou instituição consegue visualizá-los. |
3. Proteção contra acessos não autorizados: o acesso indevido a dados pode ocorrer tanto em relação à uma comunicação que está sendo enviada (dados em trânsito) e é interceptada, quanto quando comunicações armazenadas em bases de dados ou repositórios online (dados em repouso) são violados. Por isso, é fundamental que todos os dados – em trânsito e em repouso – sejam protegidos com o mais alto nível de criptografia.
Informações transmitidas sem criptografia de ponta a ponta estão mais expostas a violações por terceiros. Da mesma forma, dados armazenados sem criptografia de conhecimento zero também apresentam maior risco de acesso indevido. Ambos os tipos de violação podem afetar negativamente a privacidade, a segurança e o bem-estar de sobreviventes de violência, ao expor informações sensíveis.
Isso pode, por exemplo, permitir que a pessoa agressora localize a vítima após uma mudança de endereço, comprometer provas relacionadas a um processo judicial em curso ou ainda expor informações pessoais que prejudiquem sua capacidade de obter ou manter moradia e emprego.
- Busca por ajuda: a criptografia de ponta a ponta permite que vítimas desses crimes se comuniquem com segurança ao buscar apoio. Ela protege mensagens, dados e informações contra interceptação, exclusão e alterações indevidas, garantindo que permaneçam acessíveis apenas aos dispositivos de quem as envia e de quem as recebe.
Proteger a criptografia de ponta a ponta como medida de proteção às vítimas
A criptografia forte é uma ferramenta fundamental para garantir a privacidade e a segurança dessas vítimas. No entanto, iniciativas que buscam enfraquecer a criptografia de ponta a ponta e a criptografia de conhecimento zero acabam também fragilizando essa proteção. A adoção de mecanismos deliberadamente enfraquecidos ou a introdução de “portas dos fundos” (backdoors) em sistemas seguros expõe a riscos todas as pessoas que dependem dessas tecnologias para se comunicar com segurança.
A forma mais eficaz de manter as pessoas seguras no ambiente digital é preservar, sem concessões, a criptografia de ponta a ponta e a criptografia de conhecimento zero, além de adotar e fortalecer políticas que garantam seu uso. Vítimas de violência doméstica, violência sexual, perseguição (stalking) e tráfico de pessoas precisam ter a confiança de que suas comunicações não serão expostas enquanto buscam apoio — e de que as evidências que reúnem poderão ser armazenadas com segurança, sem risco de alteração ou exclusão maliciosa. A disponibilidade de tecnologias baseadas nesse tipo de criptografia amplia a autonomia dessas pessoas e viabiliza o acesso a redes de apoio, ao mesmo tempo em que fortalece sua proteção e sustenta seus processos de recuperação.
Para saber mais sobre os aspectos técnicos e humanos da criptografia, acesse www.internetsociety.org.
Para informações sobre como apoiar essas vítimas, visite www.techsafety.org.
Também é possível acompanhar esse trabalho no Twitter em @internetsociety e @nnedv.
Escrito por
Luiza Dutra (Ver todos os posts desta autoria)
Luiza Correa de Magalhães Dutra, doutoranda e mestra em Ciências Criminais pela Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul. Especialista em Segurança Pública, Cidadania e Diversidade pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Bacharela em Ciências Sociais pela UFRGS, com período sanduíche realizado no Science-Po Rennes, França, e Bacharela em Direito pela PUCRS. Pesquisadora.