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Quando a desinformação encontra o ativismo

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23 de dezembro de 2019

Você com certeza ouviu as frases “notícias falsas” e “estão manipulando você na internet”  ultimamente conversando com conhecidos. O assunto “desinformação” chegou a ser palco de debates acadêmicos e até de discursos de autoridades políticas. Já é lugar-comum receber ou dar o conselho de “não acredite em tudo que lê ou enviam para você nas redes sociais”. 

Geralmente, pensamos que esse tipo de conselho é válido para notícias e acontecimentos, mas também é preciso prestar atenção nas opiniões disseminadas por aí. Sabe quando, no meio de um episódio de uma novela ou clipe de música, a personagem central mostra um item de marca e fala bem dele, porém sem esclarecer que está recebendo dinheiro para isso? Esse tipo de prática tem uma dimensão maior quando, para além de vender um item diretamente, se direcionam políticas públicas em torno de um interesse privado específico, mantendo oculto quem é o beneficiário.

Para promover ou frustrar o suporte a alguma pauta, corporações ou entidades tentam mimetizar um movimento natural de convergência de opiniões, patrocinando manifestações de indivíduos ou grupos em torno do assunto. O problema com isso é parecer que essas pessoas estão agindo por motivação própria, sem ficar claro que há outros interesses (e dinheiro) por trás daquela causa. Como isso acontece? Imagine que você está no ano de 1909, e começa a se deparar com diversas publicações de um tal “The Cup-Campaigner”. Elas alertam, de maneira bastante sensacionalista, para a disseminação de doenças por meio de uso compartilhado de copos de metal (comum em bebedouros em espaços públicos nos EUA à época), mais ou menos assim:

A solução oferecida é o banimento desses itens e o uso de copos descartáveis. Logo, muitas pessoas aderem à campanha e começam a pressionar as autoridades por medidas nesse sentido. O governo atende a essa campanha de saúde pública e passa a incentivar o uso de copos descartáveis. Parece uma história de mobilização por políticas públicas com final feliz, certo? Mas e se, muito depois, você ficasse sabendo que o editor desses panfletos era Hugh Moore, cofundador da empresa “Public Cup Vendor Company”, que depois se tornou a “Dixie Cup Company”, que vendia copos descartáveis? Esse foi um famoso episódio do fenômeno que pretendo discutir hoje e que integra o grande quebra-cabeça da desinformação na internet.

Redes de opinião sintéticas

Essa prática, de simular uma movimentação em torno de determinada pauta fazendo-a parecer espontânea e originária da sociedade, escondendo o vínculo com corporações ou agentes centralizadores, é chamada astroturfing. O termo em inglês  vem de uma marca de gramado sintético – “AstroTurf” – e tem a ver com o movimento natural de entrelaçamento da grama verdadeira, com suas várias raízes convergentes, que é imitado pelo sintético, tendo as mesmas qualidades aparentes embora seja artificial.

Mas por que estamos falando disso, já que é um problema tão antigo? Porque as tecnologias que temos à disposição fizeram algo revolucionário por esses mecanismos de propaganda: eles se tornaram mais opacos e mais baratos do que nunca. Antigamente, astroturfing era considerada uma forma cara e não tão simples de fazer relações públicas. E, se era difícil identificar, hoje em dia foi aprimorado com uso de perfis falsos controlados por agências e bots de disparo automatizado de mensagens.

Muitas pessoas podem perceber um subtexto em novelas, filmes, grandes canais de comunicação, tidos como “enviesados”. Porém, raramente se pensa nisso quando um participante em grupo de whatsapp, um “usuário comum” das redes sociais, posta uma opinião. E, se essa opinião começar a aparecer em outros locais, aparentemente dissociados entre si, ela pode facilmente se tornar uma pauta, angariar simpatizantes e virar uma causa em torno da qual a sociedade realmente se mobilize. 

Não é mais preciso pagar para espalhar panfletos e folhetins sem dar destaque ao editor/patrocinador. É mais simples contratar equipes inteiras de pessoas que recebem uma quantia módica ou até insignificante para disseminar mensagens aos seus colegas de grupos e contatos em redes sociais. E é muito mais difícil identificar de onde uma mensagem partiu ou se o usuário que passou ela adiante agia por interesse genuíno ou simplesmente foi cooptado por outros motivos a disseminá-la. O fato é que, tal como o gramado sintético, muitas vezes essas pautas artificiais são mais resistentes e efetivas que pautas reais.

Temos a solução; mas será que o problema era esse?

“Finja até que seja real” se torna a máxima no contexto de astroturfing online. É possível fazer uma pauta ocultamente impulsionada por interesses corporativos tornar-se genuinamente de interesse de organizações da sociedade civil. Usuários mobilizados por movimentos artificiais passam a apoiar, sem qualquer intenção oculta, uma causa que tem consequências frequentemente não tão transparentes. 

Um dos grandes fatores do astroturfing é tornar atrativa a solução apontada pelos interessados, dando ênfase ao problema que ela resolve. Muitas vezes, o problema ou a solução não estão realmente conectados, e a ligação entre eles mascara questões reais que deveriam receber atenção. Isso ocorreu em alguns casos conhecidos e estudados para além do icônico caso do copo público. Como relatado neste paper, havia uma mineradora em expansão na Índia que enfrentava problemas com comunidades locais ambientalistas. Ela passou então a patrocinar a disseminação de tradições e cultura daquelas tribos, cooptando a liderança do movimento de resistência para se tornar um defensor da industrialização. Nesse processo, a pauta ambiental ficou à margem, pois o enfoque foi deslocado para a demanda das tribos por oportunidades de desenvolvimento às autoridades.

Esses episódios de opacidade quanto à agenda por trás de uma política pública revelam que a desinformação também pode ser combatida com mais transparência das autoridades. Afinal, se há interesses privados patrocinando mobilizadores de opinião pública, e a opinião pública pressiona as autoridades para que elas adotem uma solução que pode vir a favorecer um agente privado, isso deveria ficar claro às pessoas, e poder ser questionado. Se não é viável identificar sempre que uma opinião é patrocinada de forma oculta, é ao menos possível fiscalizar o que é feito a partir de sua colocada na agenda de políticas públicas. 

É necessário repensar nossa relação com a desinformação, indo além da checagem de fatos e da busca por fontes seguras para nossa própria formação de opiniões.  A tomada de decisões públicas precisa, mais do que qualquer outra, ser pautada não apenas em demandas imediatas e mobilizações, mas em fontes seguras, com fundamento em pesquisa, em fatos investigados e testados por entidades de diferentes perspectivas. A mobilização social é uma poderosa ferramenta de apontar prioridades ao poder público, e por isso é igualmente valiosa na hora de exigir transparência para avaliar as soluções adotadas.

Se desinformação é um assunto do seu interesse, leia esse outro post e fique sabendo qual a abordagem dada pelo nosso legislativo para o problema!

As opiniões e perspectivas retratadas neste artigo pertencem a seu autor e não necessariamente refletem as políticas e posicionamentos oficiais do Instituto de Referência em Internet e Sociedade.
Ilustração por Freepik

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Coordenadora de Pesquisa e pesquisadora no Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS), Doutoranda em Direito na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Mestra em Direito da Sociedade de Informação e Propriedade Intelectual pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Graduada em Direito pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Membro dos grupos de pesquisa Governo eletrônico, inclusão digital e sociedade do conhecimento (Egov) e Núcleo de Direito Informacional (NUDI), com pesquisa em andamento desde 2010.

Interesses: sociedade informacional, direito e internet, governo eletrônico, governança da internet, acesso à informação. Advogada.

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