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Teoria da Mudança do IRIS

3 de abril de 2026

1. DIAGNÓSTICO

Há não muito tempo, vivemos um momento em que a internet foi vista como uma esperança para o mundo ser melhor. Instrumento de geração de trabalho e renda, democratização da comunicação e acesso à direitos. Mas esse otimismo hoje dá lugar a sentimentos de incerteza sobre o nosso futuro com a tecnologia.

No lugar de um protagonismo coletivo na rede, vimos o desenvolvimento da tecnologia promover os interesses de uma elite pequena. Ao invés de um desenvolvimento tecnológico focado na justiça social, o interesse de mercado orientou inovações que aumentam ainda mais os problemas sociais no ambiente digital – levando a discriminações e a desigualdades econômicas cada vez maiores, por exemplo. Enquanto o desenvolvimento da tecnologia e a própria internet representam eficiência e comodidade para alguns, para muitos outros ainda reforçam as desigualdades sociais que causam exclusão e colocam pessoas em situações de risco financeiro, mental e até mesmo físico.

 

2.MUDANÇA NECESSÁRIA

Apesar da frustração generalizada, a internet segue sendo uma das maiores ferramentas para fortalecer direitos humanos. É com um olhar crítico sobre o contexto em que estamos, e encarando esse desafio atual, que o IRIS assume a missão institucional de contribuir para que a transformação digital seja guiada pelas reais necessidades das pessoas. Trabalhamos para que o desenvolvimento tecnológico resulte de forma direta em menos desigualdade e mais justiça social.

Afinal, se educação, saúde e trabalho são nossas prioridades sociais, que também sejam do desenvolvimento tecnológico.

Em busca de soluções para um desenvolvimento tecnológico que se converta em justiça social, reverenciamos e nos baseamos onde estamos e de onde viemos. O IRIS com sua trajetória enraizada em Minas Gerais trabalha para colocar à mesa inovações tecnológicas e de governança social que nosso estado tem a contribuir.

Além de ser nossa casa, Minas Gerais tem uma história de promover inovação como caminho para emancipação social -a exemplo . É também um dos Estados mais demográfica, religiosa e racialmente diversos do Brasil, além de ser um dos maiores indicadores das eleições; o que confere a Minas Gerais a característica de ser “a síntese do Brasil”.

Assim como a comida mineira nos acolhe e a gente mineira nos lembra diariamente da força da gentileza, queremos que o futuro digital carregue esse mesmo belo horizonte de esperança. Trabalhamos para que a diversidade e o espírito esperançoso de Minas Gerais sirva ao Brasil – e ao mundo – não apenas seus sabores e sua história, mas também inovações, vozes e experiências que orientem uma transformação digital mais inclusiva e justa

O primeiro desafio que enfrentamos é o domínio de grandes corporações em agendas regulatórias, o que impõe barreiras no avanço de políticas públicas necessárias para garantir que a tecnologia sirva prioritariamente ao interesse social. Novas obrigações e responsabilidades são necessárias para garantir um uso da internet e ferramentas tecnológicas mais saudáveis, seguras e democráticas.

Além disso, a massificação e padronização dos usos da internet promovida por grandes empresas e operação opaca de algoritmos determinando o uso que a sociedade faz da tecnologia promoveu a influência corporativa em práticas culturais. O resultado é a construção das pessoas usuárias de internet e tecnologias como consumidoras-passivas, vulneráveis aos diversos riscos digitais e que oferecem seus recursos -dados, atenção- para o enriquecimento de grandes grupos econômicos. Portanto, observa-se o direcionamento unilateral dos maiores benefícios do desenvolvimento tecnológico em prol de uma pequena parcela da população, enquanto que a maioria fica vulnerável e na condição de trabalhadores não remunerados do ecossistema digital.

Muito em razão da construção opressiva de imaginário tecnológico e da repulsa a processos político institucionalizados, um terceiro desafio que enfrentamos para que o desenvolvimento tecnológico promova justiça social está na ausência dos saberes populares e reivindicações de grupos vulnerabilizados na construção de políticas públicas. Evidências, dados e narrativas são elementos centrais para construção de estruturas de poder, e na esfera tecnológica esses elementos têm sido majoritariamente apresentados por grupos de elite  Um dos processos de desenvolvimento tecnológico que reflete esse desequilíbrio é como o Brasil tem dependido cada vez mais da infraestrutura de internet de outros países. Hoje, a distribuição da disponibilidade e qualidade do acesso à internet em nosso país está diretamente relacionada à aspectos socioeconômicos, fazendo com que a população pobre, racializada e habitantes de territórios remotos esteja excluída das possibilidades de acesso aos benefícios da rede.

É preciso que as demandas e os saberes locais sejam parte na construção de políticas, na criação do futuro e nas escolhas que visam o nosso desenvolvimento coletivo. orientando os diferentes setores da economia para um ecossistema digital equilibrado e fortalecido em direitos humanos.

Precisamos integrar a segurança digital à proteção dos nossos biomas, a educação midiática às práticas de tecer das artesãs dos interiores de Minas, a inteligência ancestral dos quilombos e povos originários à inovação responsável da IA, e assim construir um futuro onde a tecnologia esteja a serviço da justiça social e do bem viver.

 

1. ATIVIDADES-CHAVES

Para enfrentar esses desafios o IRIS adota uma estratégia em diferentes frentes, que propõe:

1. Produzir dados sobre as especificidades de comunidades historicamente marginalizadas no Brasil e américa latina, a partir da pesquisa-ação, munindo o debate público de evidências baseadas em demandas populares;

2. Criar oportunidades para unir o conhecimento já produzido nas culturas de cada grupo social a um conhecimento complementar que promova o  protagonismo destes grupos no desenvolvimento tecnológico e na participação política,

3. Co-construir novas narrativas e argumentos que focam em questões fundamentais para as pessoas afetadas quando falamos em desenvolvimento tecnológico, inclusive como estratégia de imaginar futuros possíveis pelo qual trabalharemos;

4. Colaborar diretamente para a elaboração de políticas públicas e regulações que visem equilibrar os poderes entre os diferentes atores.

 

2.IMPACTO ESPERADO

Para uma atuação assertiva frente ao diagnóstico que fazemos, organizamos a atuação do IRIS em três programas, realizando nossas quatro atividades-chaves de acordo com parcerias e com a conjuntura política.

  • Governança social da tecnologia: Impulsionamos a inovação social responsável, promovendo narrativas que alinham tecnologia e desenvolvimento social e regulações que garantam direitos humanos. Neste programa contribuímos para a aprovação de uma marcos regulatórios de uso de inteligência artificial, avanço da legislação eleitoral protetiva ao ambiente digital e novos arcabouços regulatórios aplicados a plataformas digitais.

  • Segurança e tecnologia: Promovemos um uso da internet mais seguro e saudável principalmente considerando riscos digitais que afetam desproporcionalmente grupos vulneráveis. Nosso programa busca reduzir lacunas regulatórias e de letramento digital que no ambiente online promovem a radicalização das juventudes, violência baseada em gênero e vigilância massiva da sociedade.

  • Conectividade significativa: Atuamos para garantir que tanto a infraestrutura de internet quanto a apropriação tecnológica seja incorporada no projeto de Brasil. Nesta linha buscamos reduzir as barreiras de acesso à internet por razões econômicas ou educacionais, construindo com atores governamentais e provedores de infraestrutura os caminhos para garantir que os números de usuários da internet no Brasil reflitam usuários com serviço de qualidade e letrados para um uso autônomo e democrático.

 

3.PÚBLICO-ALVO

Financiadores, formuladores de políticas e tomadores de decisão, comunidades vulnerabilizadas.

 

4.OLHANDO PARA FRENTE

Nosso passado recente demonstra que essas não serão transformações fáceis, mas sabemos que  são urgentes. No IRIS, acreditamos que temos o que é necessário para trilhar essa jornada: com 10 anos de atuação na área, uma equipe interdisciplinar e de diversas origens sociais.Temos protocolos robustos para pesquisa e geração de dados atenta às demandas e conhecimentos de comunidades vulnerabilizadas, parcerias estratégicas e muita disposição para promover uma sociedade mais justa on e offline.

O IRIS é a organização capaz de contribuir para as mudanças necessárias de um ecossistema digital excludente para que a transformação digital seja guiada pelas demandas populares. Aliando pesquisa baseada em evidências e saberes tradicionais, comunicação acessível e democrática e incidência política orientada à promoção dos direitos humanos, estamos prontos para alcançar o mundo que queremos.

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