Pelo dia da ciência do laboratório, do quintal de casa, do quilombo e de onde mais ela se fizer presente
Escrito por
Fernanda Rodrigues (Ver todos os posts desta autoria)
8 de julho de 2025
Entender a ciência como algo que se dá somente em frente ao computador ou dentro de 4 paredes brancas é coisa do passado.
Hoje, no dia 8 de julho, é comemorado o Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador. Mas qual é a primeira imagem que te vem à cabeça quando você pensa em ciência? Muito provavelmente, você deve lembrar de pessoas vestindo um jaleco branco em um laboratório ou, então, de uma pessoa sentada em frente ao computador por horas, analisando textos e dados, até chegar em alguma conclusão.
Essa também era a primeira imagem que vinha à minha cabeça há alguns anos, mas depois de ter visto a ciência e a pesquisa serem feitas de outro modo, essa cena mudou drasticamente. E é sobre isso que eu gostaria de compartilhar com você hoje.
O conhecimento que se constrói na vivência
Desde 2022, o IRIS vem trabalhando com lideranças comunitárias de Belo Horizonte e região metropolitana, como indígenas, quilombolas e comunidades periféricas. Desde o início, o nosso propósito foi mais ouvir do que ensinar. Normalmente, a galera que vem do mundo acadêmico parte do pressuposto de que tem muito a compartilhar (e não que não tenha), mas é que
Nós sempre soubemos que havia um conhecimento sobre internet e tecnologia que nunca iríamos alcançar através das universidades ou de outros espaços formais. Tinham informações que a gente só conseguiria colocando o pé no chão.
No primeiro ano de aproximação com essas comunidades, já percebemos que, mesmo diante de limitações em relação ao acesso e qualidade da internet, as lideranças encontravam suas próprias formas de se apropriar e se relacionar com essa tecnologia. Seja por meio da construção de redes de apoio, da manutenção de vínculos identitários, de sua utilização para comunicação interna ou para manifestação cultural, as lideranças denunciavam problemas sociais ao mesmo tempo em que reafirmavam a sua identidade e sua história no ambiente digital.
Na ausência de bons indicadores de conectividade significativa, era através da criação de conexões significativas que cada comunidade reescrevia sua história digitalmente. Sem manual de instruções, sem efetividade em muitas políticas públicas de inclusão digital, sem o apoio e reconhecimento necessário por parte de governos: as lideranças contaram sua história de resistência e também compartilharam o conhecimento que tiveram que vivenciar na prática, para então passar adiante.
Ciência não é só metodologia e racionalidade
Se você pesquisar o que é ciência no Google, ele vai te retornar que uma das respostas é que se trata de um “corpo de conhecimentos sistematizados adquiridos via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos, e formulados metódica e racionalmente”. Se você pesquisar um pouquinho mais, vai encontrar definições que insistem na necessidade de um “método objetivo e bem definido”.
A questão é que poucos lugares vão falar que essa definição de ciência decorre de um local bem específico. De uma ideia de mundo que sempre insistiu em separar o sujeito do objeto, como se uma divisão total entre esses dois lados fosse 100% possível. Poucos vão lembrar que se existe uma definição de ciência é porque alguém criou esse conceito e que, portanto, ele representa UMA determinada verdade.
E antes que vocês pensem que eu defendo que a terra é plana (o que não é o caso) ou que eu desejo validar toda e qualquer afirmação como ciência, o que eu pretendo fazer aqui não é validar desinformação. Mas é te provocar a reconhecer que a produção e a valorização do conhecimento não precisa passar, necessariamente, por uma única visão de mundo sobre o que é ciência. E nem por uma única visão de mundo sobre quem pode ser reconhecido como cientista.
Quando nós questionamos, em um grupo de estudos com essas mesmas lideranças comunitárias, quais exemplos de tecnologia existiam, para além das tecnologias digitais, nós recebemos diferentes respostas que demonstram que a criação e a transmissão de conhecimento não advém somente de uma sala de aula no Centro de Ciências Exatas de uma universidade. Pelo contrário, ela está no dia a dia: no saber tradicional sobre cura e proteção; na oralidade de uma receita que passa de geração em geração; no respeito ao sagrado por meio de objetos de um terreiro; e assim por diante. E o mais surpreendente é que mesmo sem qualquer método prévio, regra abstrata ou relação de causalidade, isso não impedia as comunidades de construírem a sua própria relação e sua forma de ver o mundo.
Mesmo que em discussões acadêmicas não fosse possível avaliar esse conhecimento, suas técnicas e tecnologias com parâmetros de verificabilidade e falseabilidade, elas não deixavam de existir ou de fazer sentido para cada uma das comunidades. A sua forma alternativa de apropriação tecnológica, as suas engenharias para a compreensão de um objeto novo ou para transmitir um saber aos mais novos também é ciência, também é conhecimento – mesmo que as próprias comunidades não dessem esse nome.
Um dia para comemorar todas as formas de pesquisar e cienciar
Portanto, neste dia da Ciência e do Pesquisador, eu gostaria de homenagear todas aquelas pessoas que fazem ciência como verbo, e não como substantivo. Desejo homenagear quem está por aí, cienciando mesmo sem saber que esse verbo existe (ou que ele é possível) e tampouco que existe um nome para o que fazem. Para aquelas pessoas que cienciam vivendo, sobrevivendo e resistindo. Para quem ciencia ao reinventar a história, ao subverter padrões e ao criar sua própria forma de ver e entender um mundo.
Um feliz dia da ciência e da pesquisa para quem não acha que é pesquisador, mas que descobre, inventa, nomeia e desvenda muitos saberes no quintal de casa, dentro do quilombo, dentro de sua comunidade e dentro de sua realidade.
As opiniões e perspectivas retratadas neste artigo pertencem a sua autoria e não necessariamente refletem as políticas e posicionamentos oficiais do Instituto de Referência em Internet e Sociedade.
Escrito por
Fernanda Rodrigues (Ver todos os posts desta autoria)
Coordenadora de pesquisa e Pesquisadora do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS). Doutoranda em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É Mestre em Direitos da Sociedade em Rede e Graduada em Direito pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Membra do Coletivo AqualtuneLab. Tem interesse em pesquisas na área de governança e racismo algorítmicos, reconhecimento facial e moderação de conteúdo.