Lasanha Digital Brasileira: camadas para uma soberania tecnológica com sabor local
Escrito por
Paulo Rená (Ver todos os posts desta autoria)
11 de agosto de 2025
A soberania digital se constrói no fogo baixo e o Brasil precisa escolher os ingredientes da sua própria receita tecnológica.
Recentemente fui apresentado a uma ideia provocativa que ainda está reverberando em mim: a EuroStack. Trata-se de uma proposta europeia de soberania digital que organiza soluções tecnológicas públicas em camadas, com base em valores democráticos, interoperabilidade e código aberto.
Durante a conferência ICON-S 2025, realizada na Universidade de Brasília pela International Society of Public Law, eu fui impactado por esse detalho na apresentação “Direito e Inovação Regulatória em Democracias Plataformizadas” do pesquisador Thomas Streinz (ao lado de Clara Iglesias Keller, Ivar Alberto Hartmann, Beatriz Kira e Zoë Asser). Foi pra mim um convite a pensar infraestrutura digital não como um dado técnico neutro, mas como uma escolha política: com profundas implicações para autonomia nacional, inclusão e democracia.
E aí acrescento eu uma provocação: por que importar o termo stack (“empilhamento”, em inglês), quando temos metáforas mais saborosas? Proponho então uma alternativa bem temperada: a Lasanha Digital Brasileira.
Uma camada de cada vez
A lógica de stack é simples e poderosa: organizar diferentes componentes tecnológicos (como nuvem, identidade digital, software público, dados, redes) em camadas interoperáveis, ou seja, que conversem entre si. No caso da EuroStack, a estrutura proposta busca garantir que a Europa tenha maior controle sobre sua infraestrutura digital, sem depender de monopólios estrangeiros (notadamente EUA e China) e com base em princípios coletivos.
Uma outra iniciativa que conheci esses dias foi a “Public Stack”, que busca traduzir a ideia de que nós só acessamos a superfície da tecnologia. Nas camadas mais profundas, ocultas ao nosso olhar, há interesses privados e interesses estatais que determinam como as coisas vão funcionar no fundo: Como nossos dados são utilizados? Como as empresas vão ganhar dinheiro? Como os aparelhos se conversam? Quais regras legais se aplicam? Para quem a gente reclama se algo der errado?
Traduzindo isso tudo para o nosso contexto nacional: o que seria uma “lasanha digital” feita no Brasil? Quais ingredientes locais podemos combinar para uma receita de soberania digital que atenda às nossas realidades e desafios específicos?
Uma lasanha com sabor brasileiro
Pensar a soberania digital brasileira como uma lasanha não é só uma brincadeira culinária. É um convite à imaginação política sobre aspectos centrais da tecnologia. Que camadas poderiam compor essa infraestrutura?
- Camada de dados públicos abertos: fortalecendo iniciativas como a Infraestrutura Nacional de Dados Abertos, mas com mais participação social e controle democrático.
- Camada de software livre e tecnologia aberta: impulsionando soluções como o Gov.br, mas com governança compartilhada e uso fora do Estado.
- Camada de conectividade comunitária: reconhecendo e valorizando redes locais e autônomas, como as telecomunicações indígenas e quilombolas.
- Camada de identidade e autenticação: baseada em direitos, interoperável e sem uso indevido de biometria ou vigilância em massa.
- Camada de governança digital: com espaços plurais e inclusivos, onde diferentes atores (Estado, academia, comunidades vulneráveis, setor privado e sociedade civil) possam construir em conjunto.
E o sabor principal: uma camada de valores democráticos, que oriente todas as outras e nos proteja contra retrocessos autoritários, soluções tecnocráticas e dependência estrangeira.
Entre soberania digital e disputas comerciais
A discussão sobre soberania digital também encontra ecos nas tensões geopolíticas contemporâneas. A recente disputa entre Brasil e Estados Unidos em torno dos índices tarifários de exportações brasileiras expõe mais do que desacordos comerciais: revela o peso dos interesses de grandes corporações tecnológicas e o modo como acordos internacionais, decisões jurídicas internas (como o recente julgamento do STF sobre a tributação de multinacionais digitais) e pressões econômicas externas moldam os limites da nossa autonomia.
Em vez de reagir apenas ao calor dos impasses conjunturais, é essencial cozinhar uma visão de longo prazo, que compreenda a infraestrutura tecnológica como um ativo estratégico nacional. Uma “Lasanha Digital Brasileira” precisa justamente nos ajudar a servir essa soberania de forma cuidadosa, aproveitando o momento para fortalecer uma base digital democrática, resiliente e verdadeiramente nossa.
A “Lasanha Digital Brasileira” não precisa ser isolacionista. Muito pelo contrário: soberania digital não significa fechar portas, mas sim abrir caminhos próprios, com autonomia, transparência e interoperabilidade. E para isso podemos recuperar aquela vitalidade tão animada da época em que Gilberto Gil era nosso Ministro e propunha o massageamento dos pontos de cultura.
É possível se apropriar de outras iniciativas internacionais (como a própria EuroStack) e, dando a nossa pitada de alho e cebola, construir políticas públicas digitais enraizadas em nossa história, cultura e desigualdades.
Prato do dia: imaginação política
Num momento em que o debate sobre regulação de plataformas, infraestrutura digital e direitos digitais ganha força no Brasil e no mundo, talvez seja a hora de temperar essa conversa com uma boa dose de imaginação política e criatividade democrática. E soberania digital não precisa ser um tema árido, técnico nem distante.
Às vezes, tudo que a gente precisa é de uma boa metáfora. E o sabor de uma lasanha bem feita, hum, gostoso demais.
As opiniões e perspectivas retratadas neste artigo pertencem a sua autoria e não necessariamente refletem as políticas e posicionamentos oficiais do Instituto de Referência em Internet e Sociedade.
Escrito por
Paulo Rená (Ver todos os posts desta autoria)
Doutor e Mestre em Direito, Estado e Constituição na Universidade de Brasília (UnB). Pesquisador bolsista no Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS); integrante voluntário do Aqualtune Lab; ex-Diretor Presidente do Instituto Beta Internet e Democracia (IBIDEM), três ONGs componentes da Coalizão Direitos na Rede (CDR). Consultor Sênior de Políticas Públicas do Capítulo Brasileiro da Internet Society (ISOC Brasil) para os temas Responsabilidade de Intermediários e Criptografia. Conselheiro Consultivo do centro de pesquisa Internetlab. Consultor Sócio da Veredas – Estratégias em Direitos Humanos. Servidor Público Federal no Tribunal Superior do Trabalho (TST), foi gestor do processo de elaboração coletiva do Marco Civil da Internet na Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça (SAL-MJ). Premiado na Terceira Edição do Prêmio Destaques em governança da Internet no Brasil, concedido pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br.