Felca e a Proteção online de Crianças e Adolescentes no Brasil
Escrito por
Wilson Guilherme (Ver todos os posts desta autoria)
27 de agosto de 2025
Estamos sempre falando de proteger as crianças, mas estamos protegendo elas do quê?
Tenho uma regra que sigo desde que comecei a produzir conteúdo na internet com o objetivo de influenciar pessoas: nunca falar sobre pautas quentes. Em comunicação, pautas quentes são aqueles temas que estão em evidência, ou como costumamos dizer na minha região, que estão “na boca do povo”.
Essa regra nasceu porque, diferentemente do jornalismo tradicional — em que, ao cobrir uma matéria, a pessoa jornalista tende a se isentar de expor diretamente suas opiniões —, minha produção digital, seja em vídeo, texto ou imagem, sempre esteve ligada ao ato de me posicionar. Acredito que, na era em que vivemos, com conteúdos constantemente produzidos e apresentados sem tempo para “digestão”, posicionar-me sem antes elaborar plenamente as informações recebidas e reconhecer meus próprios sentimentos pode gerar inúmeros riscos, tanto para mim quanto para quem consome o conteúdo.
Assim, nos últimos anos tenho evitado ao máximo comentar sobre pautas quentes, tanto que raramente concedo entrevistas sobre temas “urgentes”. No entanto, desta vez abrirei uma exceção para escrever sobre um tema que tem dominado minha timeline nas últimas semanas: o vídeo do Felca e a temática da proteção de crianças e adolescentes no Brasil, especialmente porque não é um tema novo para mim.
Antes de seguir com minhas reflexões, vou me apresentar brevemente. Nunca sei até quem meus pensamentos podem me levar, e essa introdução é fundamental para compreender o ponto de partida dos argumentos que entrelaçam este texto. Mais do que um nome — Wilson Guilherme —, sou uma pessoa nortista, negra, não binária, Mestra em Direitos Humanos, Advogada, Pesquisadora sobre tecnologia e sociedade, ativista pelos direitos de crianças e adolescentes desde os 12 anos, e uma sobrevivente. É desse lugar que penso, escrevo e falo sobre o mundo.
O vídeo-denúncia de Felca
No dia 6 de agosto de 2025, o criador de conteúdo Felca publicou em seu canal no YouTube um vídeo de 49 minutos intitulado “Adultização”. A produção, pensada como uma carta pública de denúncia, funcionou como um holofote que lançou luz e atraiu atenção pública para diversas problemáticas relacionadas à presença de crianças e adolescentes no contexto digital.
Apesar de intitulado “Adultização”, o vídeo aborda questões que vão muito além, explorando, entre outras, as seguintes facetas:
- a monetização de materiais infantojuvenis e o modelo de negócio das plataformas;
- o processo de adultização profissional de crianças e adolescentes, ainda que sem nomear diretamente o trabalho infantil;
- a sexualização e exposição de crianças e adolescentes;
- a objetificação do corpo infantojuvenil;
- a produção e circulação de conteúdos de violência sexual infantojuvenil.
O criador de conteúdo também evidenciou, ao longo do vídeo, como as plataformas têm responsabilidade direta na manutenção de um ambiente online que expõe crianças e adolescentes a riscos, especialmente diante de predadores sexuais. Ele demonstrou ainda como é simples o condicionamento dos algoritmos para apresentar conteúdos de crianças e adolescentes que podem ser explorados para fins de violência e exploração sexual.
No vídeo, Felca convidou a psicóloga Ana Beatriz Chamati, que contribuiu com reflexões sobre os efeitos das interações online marcadas por diferentes formas de violência — sexual, emocional, financeira e familiar — e os impactos que podem gerar em crianças e adolescentes.
No dia da escrita deste texto, o vídeo já contava com mais de 47 milhões de visualizações e mais de 274 mil comentários, números expressivos. Mas não é apenas isso que evidencia seu impacto. Matérias sobre o tema foram divulgadas em diversos canais de comunicação, desde os mais tradicionais, como a TV aberta, até os mais alternativos, como grupos de WhatsApp. Inclusive meu tio — que jamais imaginei que assistiria a um vídeo do Felca — compartilhou-o no grupo da família, me chamando atenção para a proporção de alcance.
E os efeitos foram além do contexto da comunicação social. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania registrou um crescimento de mais de 500% no número de denúncias de violências sexuais infantojuvenis online. No Legislativo, toda essa visibilidade contribuiu diretamente para o avanço do PL 2628, que há tempos encontrava-se em disputa no Congresso Nacional — um tópico que abordaremos mais detalhadamente ao final deste texto.
Se você me acompanhou até aqui, provavelmente já compreendeu, ainda que de forma superficial, a problemática apresentada no vídeo do Felca e a contribuição pública que esse “vídeo-denúncia” trouxe para o cenário nacional.
Agora, quero fazer um alerta sobre um tópico ainda mais sensível. Nos próximos trechos, comentarei de forma mais aprofundada e aberta, os elementos abordados no vídeo, articulando-os com minhas experiências pessoais e profissionais. Portanto, se até aqui o conteúdo já foi sensível demais para você, tudo bem: é possível parar e retornar depois, ou até mesmo não voltar. Ainda assim, você pode colaborar com a proteção de crianças e adolescentes de outras formas, tome o seu tempo.
Enxergar crianças e adolescentes como sujeitos é a única forma real de protegê-los
A segunda parte deste texto resulta do entrelaçamento entre: os pontos levantados pelo vídeo de Felca; minha dissertação de mestrado sobre violência sexual contra crianças e adolescentes; e minhas experiências autoetnográficas, tanto como sobrevivente de violências, quanto como educadora popular em projetos de direitos humanos voltados a esse público no Brasil.
O vídeo “Adultização” aborda um fenômeno político, social, comportamental e psicológico que leva crianças e adolescentes a serem tratados ou se comportarem como adultos. Como explica a citada psicóloga Ana Beatriz, “a adultização ocorre quando colocamos sobre crianças expectativas ou comportamentos próprios de adultos”.
Cito os aspectos políticos e sociais da adultização, pois ela também resulta de nossas raízes coloniais e adultocêntricas, que colocam os adultos no centro da sociedade e reduzem crianças e adolescentes a papéis acessórios. No imaginário coletivo, ninguém “é” nada enquanto criança ou adolescente; a pessoa apenas “se torna” algo na adultez. Não por acaso, expressões como “as crianças são o futuro da nação” são recorrentes em discursos políticos.
Pensar crianças e adolescentes apenas como “futuro”, em contraste aos adultos que seriam o “presente”, é relegar sua existência presente a um limbo social. Por séculos, foram vistos como miniprojetos de adultos, algo evidente em quadros da Idade Média, nas vestimentas e poses infantis. A própria noção de infância, próxima à que conhecemos hoje, só surge na modernidade.
Muito antes da internet, já existia a questão de como tratar e cuidar de crianças e adolescentes. Contudo, as tecnologias digitais, com seu ritmo acelerado, tornaram esse desafio ainda mais urgente. Como aponta Felca, a monetização da internet transforma exposição virtual em fonte de renda e intensifica esse cenário.
Aproveitando essa possibilidade de mobilidade social, muitas pessoas antes pobres transformaram suas condições de vida e inspiram muitos planos e projetos. Assim, “estar na internet” passou a ser o sonho de muitos, inclusive de crianças e adolescentes.
Numa sociedade adultocêntrica, os meios de enriquecimento sempre estiveram centrados nos adultos. Assim, a projeção da carreira de quem cria conteúdo se concentrou em jovens e adultos, enquanto crianças e adolescentes, ao desejarem “ser influenciadores”, passaram a ter como referência os comportamentos adultizados, e passaram a imitá-los.
Essa mimetização da adultez tornou-se ainda mais viral. Não por acaso, hoje existe um mercado de “coachs” financeiros e de marketing voltado para crianças e adolescentes, denominados de “coachs mirins”, no qual circulam frases como: “a escola não me serve pra nada”, “a escola atrapalha o empreendedor” ou “o professor não ganha em um ano o que eu ganho em meses”. E mesmo de forma inocente, quem nunca achou graça ao ver uma criança vestida ou se comportando como um mini-adulto?
Esse pensamento não se limita à internet, muitas vezes vista como algo externo ao “real”. Em minhas atividades em escolas, ouvi adolescentes questionarem por que eu ainda estudava, qual futuro a educação poderia oferecer e se não seria melhor migrar para o marketing digital, já que, segundo eles, daria mais dinheiro. A repetição constante dessas ideias pode criar a sensação de que só há uma realidade possível. Quando o algoritmo reforça que todos da mesma idade abandonam a escola para virar empreendedores digitais, a conclusão é de que isso é verdadeiro e de que quem segue outro caminho está ficando para trás.
Outro ponto destacado no vídeo é a exposição infantojuvenil online, diretamente ligada à cultura digital. Uma das facetas da monetização e da presença nas redes é a exigência de estar constantemente ativo, muitas vezes de forma excessiva. Esse comportamento não é natural, mas induzido pelas próprias plataformas, seja por algoritmos que reduzem o alcance de quem “fica parado”, seja pela monetização baseada em tempo de permanência, quase como um momento de “presença escolar”.
Expor-se tornou-se a principal forma de demonstrar presença online. Essa prática não é exclusiva de crianças e adolescentes, muitos adultos também expõem a privacidade de crianças — em alguns casos, recém-nascidas — em suas redes, seja para monetizar, seja para se sentirem parte da sociedade digital.
A exposição de crianças e adolescentes online já é problemática, mas se agrava quando passam a ser tratados como produtos digitais. Seus comportamentos são performados, seja por orientação de adultos, seja pelo desejo de pertencer. O desafio central é garantir que sua presença digital não se torne reificada — bem no conceito marxista mesmo – transformada em objeto comercial de seus responsáveis e empresas.
No vídeo, Felca questiona como crianças e adolescentes, utilizados como produtos sexualizados e vítimas de violência sexual online, perceberão sua condição de vítimas, e por que algumas, mesmo quase adultas, ainda não se reconhecem nesse papel.
Como pesquisadora e sobrevivente de violência sexual na infância, adolescência e vida adulta, respondo a Felca e a quem se questiona: provavelmente vai demorar. Reconhecer-se vítima não é simples, especialmente na adolescência; nomear a violência é um passo vital, mas difícil, no processo de identificação. Porque pressupõe nomear outros sujeitos como violadores, sujeitos esses que por vezes seriam pessoas que deveriam lhe proteger.
A violência deixa marcas físicas, mentais, emocionais e relacional. Especificamente nos casos dessas crianças e adolescentes, as marcas da violência também incluem impactos econômicos. Como mostra Felca no vídeo, em que a adolescente relata repetidamente as consequências financeiras que a denúncia lhe trouxe.
É importante notar que esses efeitos financeiros são comuns em casos de exploração sexual, nos quais a dimensão econômica está presente na relação violadora. Não estou classificando o caso citado por Felca como típico de exploração sexual legalmente, mas ampliando o debate para mostrar que violências de exploração com fins econômicos também causam destruição infantojuvenil, especialmente quando há erotização e adultização das crianças e adolescentes, e que, portanto necessitam de similar responsabilização dos adultos envolvidos, e medidas de proteção infantojuvenil.
Regular para proteger
Diante desses desafios da presença online de crianças e adolescentes, é urgente avançar na regulação das plataformas. A responsabilidade não pode recair apenas sobre os próprios jovens ou seus responsáveis, que às vezes também reproduzem violências. As plataformas, grandes beneficiárias econômicas da cultura digital, devem ser responsabilizadas por suas tecnologias. Inclusive porque elas têm bastante dinheiro, que poderia ser mais usado para isso.
Nesse contexto, tramita no Congresso o PL 2628/2022, conhecido como “ECA Digital”, voltado à proteção de crianças e adolescentes online e à responsabilização das plataformas. O projeto de lei prevê a proibição do uso de dados de menores para fins comerciais, a verificação de idade mais eficaz, a atuação de um órgão administrativo regulador, o devido processo na moderação, entre outras medidas.
A aprovação desse PL pela Câmara em 20 de agosto de 2025 o levou de volta ao Senado e, em seguida, deve ir à sanção presidencial. O projeto representa um avanço na proteção infantojuvenil e na responsabilização das plataformas, mas exige atenção especial à preservação da privacidade, sobretudo de adolescentes. Nesse ponto, importante aplaudir que o texto liste expressamente “o respeito à autonomia e ao desenvolvimento progressivo do indivíduo” como um dos fundamentos da utilização de produtos ou serviços de tecnologia da informação por crianças e adolescentes (art. 4º, V).
É comum que discursos de proteção ultrapassem limites da privacidade, muitas vezes sustentados por frases como a citada pela psicóloga no vídeo de Felca: “é melhor cuidar agora, porque amanhã será tarde demais”. A regulação deve considerar o caráter de desenvolvimento das fases da infância e adolescência, garantindo uma progressiva ampliação da privacidade. Não nego a importância da supervisão nas fases iniciais, mas destaco a necessidade de respeitar a progressão da autonomia já na adolescência, que não começa apenas aos 16 anos. Crianças na primeira infância não têm a mesma situação que adolescentes de 17 anos, e cada fase merece uma atenção prioritária que respeite suas especificidades.
Há muito a comemorar com o avanço do PL e da regulação da proteção online de crianças e adolescentes. Mas é preciso reconhecer que, dos 0 aos 17 anos, há um amplo processo de desenvolvimento, marcado pela necessidade de aumento gradual da independência e da privacidade.
Para aprofundar os argumentos apresentados sobre privacidade, recomendo a leitura do nosso relatório Segurança da Informação e Proteção de Crianças e Adolescentes: Discursos e Propostas Regulatórias no MERCOSUL. E para saber mais sobre proteção de crianças e adolescentes, siga acompanhando nosso trabalho no IRIS.
As opiniões e perspectivas retratadas neste artigo pertencem a sua autora e não necessariamente refletem as políticas e posicionamentos oficiais do Instituto de Referência em Internet e Sociedade.
Escrito por
Wilson Guilherme (Ver todos os posts desta autoria)
Mestrande em Direitos Humanos e Desenvolvimento da Justiça, pela Universidade Federal de Rondônia – UNIR; Graduado em Direito pela Faculdade Interamericana de Porto Velho; Pesquisadore Bolsista do Instituto de Referência em Internet e Sociedade – IRIS; Mentore e ex-embaixador do Programa Cidadão Digital – Safernet Brasil; Ex-Coordenador de Práticas, Pesquisas e Extensões Jurídicas da Faculdade Católica de Rondônia – FCR (2022); Bolsista do programa sobre saúde mental para crianças e adolescentes da ASEC; Membro pesquisador do Grupo de Pesquisa e Ativista Audre Lorde. Tem como área de interesse: direitos humanos, infâncias e juventudes, sexualidade, raça e gênero, intersecionalização entre tecnologia e educação para direitos humanos.