Violência de gênero online e meninas adolescentes: relato de uma experiência etnográfica
Escrito por
Luisa Melo (Ver todos os posts desta autoria)
20 de outubro de 2025
Ataques, vazamentos de fotos e difamação. Quando tantas menções à violência de gênero surgem em campo, é impossível ignorar: o que está acontecendo com nossas meninas?
Fazer uma pesquisa etnográfica envolve, inevitavelmente, afetar e se deixar ser afetada pelo campo. Pesquisar em uma escola sendo uma pessoa jovem, cercada de adolescentes que compartilham suas experiências, desejos e angústias, talvez intensifique isso. Afinal, pertencemos a mundos tão distantes e ainda assim tão próximos. Nesse contexto, o contato com as meninas se faz potente: cada relato, cada traço de desenho e cada expressão de revolta delas me impressiona. As dores dessas meninas me tocam, talvez porque sejam as minhas também. Não à toa, essa é a primeira vez que escrevo em primeira pessoa por aqui. Nesse blogpost, conto um pouco sobre a minha experiência em uma escola durante uma capacitação de educação midiática com adolescentes, e como a violência de gênero aparece em campo.
Começando pelo começo
Este ano, levamos o Conectaí para três escolas da rede pública de Belo Horizonte e região metropolitana. O projeto, pautado pela educação midiática, envolve a realização de capacitações com adolescentes do ensino médio sobre diversos temas relativos ao uso seguro e saudável da internet.
Estimulando a troca de saberes e a construção dialógica de conhecimento, as atividades incluíram muitas conversas e participações dos alunos. Foram esses os momentos mais ricos e que, na última capacitação, colocaram meus dedos para trabalhar freneticamente no registro de um diário de campo que fosse capaz de cristalizar o que se passava aos nossos olhos.
Revisitar essas anotações, hoje, me parece abrir uma tímida e discreta caixa de pandora: entre as risadas, brincadeiras e reflexões, tristes e revoltantes relatos de violência aparecem. Não como uma coincidência, todos vinham de meninas. O nó na garganta que me angustiava naqueles dias, sentada com meu computador no canto da sala, retorna, dessa vez no momento de produzir um relatório no sofá de casa.
Corpos que não merecem ser amados
Talvez o relato mais frequente entre as meninas tenha sido o da comparação gerada pelas redes sociais, que acarreta falta de autoestima. Como se fosse algo banal, as meninas contam sobre os corpos perfeitos que vêem na internet e sobre como não ser daquela forma as frustra intensamente.
Em uma atividade em grupo sobre o tema, o desenho de uma aluna deixou a mensagem clara: uma menina segurava o celular, vendo a foto de uma mulher, ao mesmo tempo em que se olhava no espelho chorando. Palavras como “tristeza”, “raiva”, “desgosto” e “rejeição” a rodeavam.
As adolescentes também contaram sobre como é raro se sentirem bonitas em uma foto. Para postarem algo no perfil normal (seguido por todos os conhecidos, diferentemente do privado, daily ou dix) a foto deve estar perfeita e, claro, não ser analisada muitas vezes depois de publicada, já que sem dúvidas encontrariam algum defeito.
Nas redes sociais, não são raros os conteúdos com dicas “milagrosas” para emagrecer e mudar o cabelo ou a pele, muitas vezes munidos com o discurso de amor próprio e autocuidado. Ao meu ver, essa é uma das tendências mais contraditórias e implicitamente violentas dos nossos tempos digitais: convencer meninas e mulheres de que precisam comprar produtos, ter rotinas exaustivas de procedimentos estéticos e mudar seus corpos para que sejam belas, bem cuidadas e amáveis – por si mesmas e pelos outros.
Quem dera se essas e tantas outras meninas (inclusive a que habita em mim), cegadas pela pressão estética, pudessem ver o que bell hooks, em “Tudo sobre o amor”, disse com tanta precisão:
amar é se mover contra a opressão, é libertar a si e aos outros. O amor-próprio não floresce sozinho. Amar e ser amado é revolucionário.
Corpos que não podem se divertir
Daqui para frente, a violência de gênero torna-se escancarada, não mais escondida em tendências nas redes sociais, mas traduzida em xingamentos e humilhações.
Quando conversávamos sobre os limites entre humor e ofensa, uma aluna relatou os frequentes xingamentos que tem que escutar, ditos em tom de brincadeira, em chats de jogos online. Para evitar tal situação, a menina costuma utilizar nomes masculinos para jogar, mas quando tem que abrir o microfone, sua identidade logo é revelada e os comentários começam: “sai daqui, p*ta”, “vai lavar vasilha”. Outra aluna concorda, com indignação, que o argumento é sempre esse, de mandar a mulher ir lavar louça.
Ao ser questionada sobre sua reação quando isso ocorre, a adolescente, em tom neutro, como que habituada com a situação, disse que tenta matar os personagens dos jogadores que a ofendem – em um ato de vingança – ou que simplesmente os ignora, quando está sem disposição para reagir.
Pensando nos efeitos coletivos desse tipo de violência, a menina afirma serem maléficos, pois afastam as mulheres do mundo dos jogos. Segundo ela,“acaba desincentivando elas a querer começar a jogar, e isso é ruim”.
A experiência dessa adolescente está longe de ser única: uma pesquisa sobre mulheres gamers, realizada por pesquisadores da Unesp, demonstra que os casos de violência são extremamente frequentes entre a categoria. Outra pesquisa sobre violência de gênero em jogos online, de uma estudante da Universidade Federal do Maranhão, indica que tentativas de mascaramento do gênero têm sido estratégias para evitar os ataques.
Quando se passar por um homem permite driblar perigos, ofensas e humilhações, a resposta é mais que evidente: no mundo dos games, esportes e até mesmo no trabalho, o desprezo nunca foi uma questão de habilidade ou desempenho, sempre foi uma questão de gênero.
Quantas vezes já deixamos de fazer algo por pensarmos que não nos cabia? Por acreditarmos que não éramos boas o suficiente e que não valeria a pena tentar? Talvez nos falte a coragem e a cabeça erguida de uma adolescente do ensino médio – que tive o prazer de conhecer.
Corpos que não devem sentir prazer
Nos trechos que seguem, o nó na minha garganta se transforma em emaranhado e tensiona até quase arrebentar.
Em uma série de perguntas sobre violências que presenciam na internet, a turma – sobretudo as meninas – respondeu enfaticamente sobre já terem visto ou ficado sabendo de exposições de fotos íntimas. “Sempre, isso é o que mais tem”, uma adolescente comentou. Começaram, então, a contar sobre um vídeo que havia vazado de um momento íntimo entre uma garota e alguns meninos. Apesar de ninguém da equipe saber do que se tratava, o conteúdo parecia ser viral entre a turma. Um debate sobre ter sido ou não um caso de assédio instaurou-se entre os alunos. Foi necessária intervenção da nossa equipe para reiterar que a garota poderia ter escolhido ter relações com aquelas pessoas, mas não necessariamente ter aquele momento gravado e exposto.
Uma aluna reagiu em tom revoltado: “todo mundo culpa a mulher, mas o homem que tava gravando”. Outra adolescente reafirma a desigualdade de gênero nesse tipo de situação, vexatória para mulheres e, por vezes, gloriosa para homens: “A menina que *** [teve relações sexuais] é rodada, p*ta, e o cara é f*dão”.
Em outro dia de atividades, esse tipo de julgamento voltou a ser mencionado, dessa vez em um relato individual. Quando conversávamos sobre comportamentos que os alunos gostavam e não gostavam na internet, um grupo citou a criação de perfis fakes como algo reprovável. Ao serem indagados sobre esse tipo de prática, uma menina tomou a frente: ela explicou que às vezes são criados perfis falsos em redes sociais, passando-se por outras pessoas, a fim de difamá-las. Foi o que aconteceu com ela.
“Uma pessoa criou um perfil fake pra falar mal de mim nas redes sociais, no meu caso falaram que eu era rodada, que já fiquei com muita pessoa, aí a pessoa me marcou, marcou meu @”. A adolescente contou que não conseguiu descobrir quem foi a pessoa e que procurou não se deixar afetar pela situação.
A exposição e humilhação às quais essa menina foi submetida são imensuráveis. Não entrando no mérito de entender se aqueles julgamentos tinham algum tipo de fundamento na realidade ou se eram puras mentiras, o que interessa nessa situação é reconhecer de onde eles vêm. O uso de termos pejorativos e a referência à vida afetiva-sexual da garota como forma de vexação revelam uma narrativa clara: ser uma mulher que se envolve com quantas pessoas quiser é visto socialmente como motivo de vergonha. Ser uma mulher que se diverte, sente prazer e vive paixões livremente é visto como abominável e deveria ser punido publicamente.
Que mulher nunca escutou que deveria se valorizar – lê-se “se tolher” – para merecer o tão almejado amor masculino e enfim poder dedicar o resto de sua vida ao prazer dele (não dela)? O tempo não fez com que esse discurso desaparecesse, mas sim com que se atualizasse: agora é possível controlar mais de perto – e com mais olhos – nossas garotas.
Uma despedida pouco calorosa
Meu texto se encerra menos otimista do que eu gostaria. Dizer que as coisas não são tão graves assim e que o futuro nos guarda melhorias garantidas é viver num mundo de ilusões – e não se luta munida de ilusões.
O contato que tive com as meninas da escola foi um alerta e um lembrete de que nossos direitos, nossa paz e nossa liberdade não estão garantidas, nem mesmo para as próximas gerações.
As violências que ressoaram nessa experiência etnográfica não são novidades. São discursos antigos de misoginia, revestidos por uma roupagem tecnológica e com um alcance potencializado pela internet. Pelo menos sabemos contra o que estamos lutando.
Se você se interessa por temas relativos à violência de gênero e tecnologia, não deixe de conferir as outras produções do nosso blog e os produtos do projeto Vaza, Stalker!. Seguimos juntas.
As opiniões e perspectivas retratadas neste artigo pertencem a sua autora e não necessariamente refletem as políticas e posicionamentos oficiais do Instituto de Referência em Internet e Sociedade.
Escrito por
Luisa Melo (Ver todos os posts desta autoria)
Estagiária de pesquisa do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS). Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Tem interesse em pesquisas na área de inclusão digital, educação midiática, segurança pública e Direitos Humanos nas redes