Se o público não entende os dados abertos, o que fazer?
Escrito por
Paulo Rená (Ver todos os posts desta autoria)
3 de junho de 2025
O IRIS realizou dois grupos focais com organizações da sociedade civil para descobrir as barreiras de usabilidade no portal de dados abertos da ANATEL sobre conexão à Internet.
A equipe de pesquisa do Cadim de Dados – projeto desenvolvido pelo IRIS com apoio da Embaixada do Reino Unido – realizou em São Paulo e Salvador dois grupos focais para identificar o que dificulta o entendimento das pessoas a respeito dos dados públicos abertos sobre conexão à Internet. Quer saber que projeto é esse, o porquê de São Paulo e Salvador, como funciona um grupo focal e qual exatamente foi o nosso propósito com essa atividade? Vem comigo!
Cadim de Dados: basta um bocado para muita coisa
O IRIS, com apoio da Embaixada do Reino Unido, deu início neste ano ao projeto Cadim de Dados: para democratizar as ações de conectividade. Em nosso propósito maior de promover mais inclusão digital, queremos intensificar a publicidade dos dados públicos que a ANATEL divulga sobre a conexão à Internet, fazendo com que eles sejam mais compreensíveis e úteis para movimentos sociais, comunidades vulnerabilizadas e gestores públicos. Nossos esforços vão buscar melhorar a forma como esses dados são disponibilizados e, como consequência, ampliar o engajamento social na formulação de políticas públicas sobre acesso à internet.
Partimos do pressuposto de que os dados já estão disponíveis, mas a maneira como eles estão publicados não alcança a finalidade de prover a necessária transparência. Entendemos que um pequeno bocado, um bocadinho, ou (em bom mineirês) um cadim de dados poder ser uma entrada para a promoção de grandes mudanças: desde que – para além de especialistas das empresas do setor de telecomunicações – as pessoas consigam compreender as informações e devolver para a ANATEL como suas demandas deveriam ser atendidas, quais as lacunas e gargalos para a inclusão digital ser materializada por meio da conectividade significativa. Se as organizações da sociedade civil e os grupos vulnerabilizados puderem transformar esses dados em demandas concretas, teremos alcançado nosso objetivo.
Diante do cenário de exclusão digital e da dificuldade de compreensão dos dados técnicos disponibilizados pela ANATEL, o projeto propõe tornar essas informações mais acessíveis por meio de melhorias na linguagem, formato e conteúdo dos painéis de dados. A proposta se estrutura em cinco ações principais: desenvolver pesquisa aplicada, identificar boas práticas, promover eventos, realizar grupos focais, e atuar sobre as políticas públicas de acesso à informação.
“A Internet” do Brasil presente em São Paulo e Salvador
Em São Paulo (SP), entre os dias 16 e 17 de maio deste ano, ocorreu a CryptoRave, um evento descentralizado de 24 horas com diversos debates sobre tecnologia, internet, segurança, dados e outras temáticas. Como sempre, participaram várias organizações do Brasil e de países como Argentina, Colômbia e Estados Unidos. A mineiridade do IRIS também se fez presente: realizamos o primeiro grupo focal do projeto Cadim de Dados.
Mas e Salvador? Foi a capital baiana que recepcionou o 15º Fórum da Internet no Brasil, o maior evento multissetorial sobre internet do Brasil. O FIB – realizado anualmente pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil e pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR – conta com a participação de diversas organizações brasileiras. São cinco dias de debates que envolvem inteligência artificial, proteção de dados, acesso à informação, educação midiática, conectividade significativa e regulação das bets.
Entre as atividades oficiais, eu participei, por exemplo, de um painel chamado “Lucro meu, azar o seu: Bets, saúde mental e regulação de plataformas”, organizado pelo C-PARTES – Coletivo de Pesquisa e Ativismo de Rondônia sobre Tecnologia, Estado e Sociedade. O workshop abordou os impactos sociais e psicológicos dos jogos de azar e apostas eletrônicas no Brasil, com foco em populações vulneráveis. Foram discutidas a regulação das plataformas digitais e a responsabilidade de influenciadores na promoção dessas práticas. E entre os dias 26 e 30 de maio acompanhei vários painéis muito interessantes, além de reencontrar e abraçar uma série de pessoas amigas, com quem compartilhamos as muitas frentes de luta por direitos na governança da Internet.
A beleza do FIB é viabilizar que as pessoas se encontrem e – sem necessariamente terem um objetivo único previamente definido – possam realizar e potencializar seus vários objetivos com esse grandioso encontro. É uma plataforma analógica de potencial infinito. Trata-se portanto de uma oportunidade única para reunir pessoas especialistas em torno de um tema tão caro à Internet quanto a usabilidade dos dados sobre a conectividade no pais.
Modo de fazer: grupo focal
Entre outras atividades do Cadim de Dados, nós da equipe de pesquisa nos planejamos para realizar um tipo de pesquisa-ação com grupos focais para mapear barreiras no acesso e uso dos dados da ANATEL. Pesquisa-ação é um método investigativo em que pesquisadores e participantes colaboram ativamente para identificar problemas, testar soluções e gerar conhecimento enquanto transformam a realidade que é objeto de estudo. Com os grupos focais, nossa intenção é buscar entender o que as pessoas pensam, sentem e sofrem ao lidarem com os dados públicos sobre conexão à Internet.
Assim, para realizar a atividade, repito, fizemos dois grupos focais. O primeiro ocorreu na CryptoRave, voltada a ativistas, reunindo mais de 30 pessoas, por 50 minutos. No segundo grupo focal, realizado em paralelo ao FIB15, nosso enfoque foram organizações de impacto social participantes do ecossistema de governança da internet e presentes em Salvador, com 12 pessoas colaborando durante 60 minutos.
A ideia da atividade é começar com perguntas simples respondidas por meio de canetas, cartolinas, post-its e adesivos e termina com uma navegação “mão na massa” no painel de dados da ANATEL. Tudo isso para captar percepções, sentimentos e opiniões a respeito de barreiras de linguagem, formato e conteúdo que dificultam a utilização dos dados públicos sobre conectividade, publicizados pela ANATEL.
Por meio de perguntas estruturadas, coletamos as respostas em post-its e as organizamos em cartolinas antes de passarmos à fase prática de navegação no site da ANATEL. Essas primeiras informações permitiram apresentar rapidamente o centro de nossa preocupação e, a partir desse alinhamento, direcionar as pessoas para compartilharem conosco os seus interesses, seus saberes e os seus desconhecimentos diante de uma tecnologia pensada pela ANATEL como instrumento para a realização da transparência dos dados públicos abertos.
E o que vem depois?
Explicados os detalhes sobre o grupo focal realizado em Salvador, finalizo indicando quais os nossos próximos passos no projeto Cadim Dados.
Nossos próximos passos serão sistematizar os resultados dos dois grupos focais e apresentar uma publicação. Em seguida, vamos publicar nosso relatório sobre revisão de literatura, e depois faremos uma busca por boas práticas de outros países na divulgação de dados. Em setembro, compartilharemos alguns resultadaos durante o seminário “Governança das Redes”. E por fim, em outubro, publicaremos um relatório final do projeto e uma lista de recomendações para a ANATEL. Serão tarefas complexas e enriquecedoras que cumpriremos em compromisso com a grandeza da urgência da inclusão digital.
Espero que você siga acompanhando o desenvolvimento do nosso projeto!
As opiniões e perspectivas retratadas neste artigo pertencem a sua autoria e não necessariamente refletem as políticas e posicionamentos oficiais do Instituto de Referência em Internet e Sociedade.
Escrito por
Paulo Rená (Ver todos os posts desta autoria)
Doutor e Mestre em Direito, Estado e Constituição na Universidade de Brasília (UnB). Pesquisador bolsista no Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS); integrante voluntário do Aqualtune Lab; ex-Diretor Presidente do Instituto Beta Internet e Democracia (IBIDEM), três ONGs componentes da Coalizão Direitos na Rede (CDR). Consultor Sênior de Políticas Públicas do Capítulo Brasileiro da Internet Society (ISOC Brasil) para os temas Responsabilidade de Intermediários e Criptografia. Conselheiro Consultivo do centro de pesquisa Internetlab. Consultor Sócio da Veredas – Estratégias em Direitos Humanos. Servidor Público Federal no Tribunal Superior do Trabalho (TST), foi gestor do processo de elaboração coletiva do Marco Civil da Internet na Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça (SAL-MJ). Premiado na Terceira Edição do Prêmio Destaques em governança da Internet no Brasil, concedido pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br.