Blog

O Uso de Bots nas Eleições Brasileiras

Escrito por

30 de julho de 2018

Além do debate sobre fake news, outro tema importante sobre as eleições gira em torno do uso de bots nas redes sociais, para promover campanhas e debates políticos. A palavra é um diminutivo de robot, e pode ser definida, de forma simples, como um software que busca automatizar determinada tarefa repetitiva, como informar a previsão do tempo ou mesmo simular uma conversa humana. Assim, apesar da referência ao termo robô, deve-se ter em mente que um bot pode apresentar diferentes níveis de complexidade, que vão desde um simples programa que busca compartilhar postagens até as tentativas de se criar um assistente pessoal por meio de técnicas de inteligência artificial (p. ex. Siri, Cortana, Watson, entre outros).

Atualmente serviços de bots são utilizados, às vezes com severos impactos negativos,  de forma a se aumentar o número de seguidores de uma pessoa em uma rede social, direcionar artificialmente o fluxo de informação, por meio de manipulação quantitativa dos algoritmos das redes sociais (postagens, compartilhamentos, likes, etc), ou até mesmo para atacar determinados perfis. O projeto da ong internacional The Spamhaus Project classifica o Brasil em 3º lugar no ranking de países com mais botnets (redes de bots) ativas voltadas a atividades maliciosas como spam, ataques de negação de serviço (DDoS), phishing.

O uso estruturado de bots nas eleições brasileiras teve início em 2010,  período a partir do qual se começou a utilizar mais intensamente a internet como plataforma de campanhas eleitorais, inspirado sobretudo no sucesso da campanha online de Barack Obama em 2008. Entretanto, deve-se ressaltar que o rádio e tv ainda são mídias fundamentais nas campanhas eleitorais nacionais, principalmente ao se considerar que somente 54% dos domicílios brasileiros possuem alguma forma de acesso a internet.

Podemos citar como um exemplo concreto de uso de redes de bots (botnes) para apoio de candidatos as eleições presidências de 2014. Conforme demonstrado em uma pesquisa feita pela Universidade Federal do Espírito Santo 15 minutos após o início da debate na televisão do 2º turno o número de hashtags sobre o candidato Aécio Neves triplicou, enquanto que as hashtags referentes a candidata Dilma Rousseff não chegaram a uma taxa minimamente semelhante (ARNAUDO, p.12). Assim, o aumento brusco do número de hashtags é um forte indicativo do uso de bots para alavancar uma campanha eleitoral.

Esse tipo de estratégia busca garantir que determinado assunto seja predominante em uma rede social, o que pode confundir o usuário comum ao fazê-lo pensar que o destaque de um determinado tema é simples reflexo do que a maioria das pessoas estão discutindo, ou apoiando.

Pode-se programar os bots para compartilhar, ou re-tweetar, determinadas postagens; além de atacar ou apoiar um determinado candidato em uma rede social. Nesse sentido encontram-se empresas especializadas em vender apoio e engajamento em redes sociais (p. ex. a Brasil Liker), provavelmente por meio do uso de botnets, devido ao baixo preço para se adquirir esses serviços. Conforme resume o pesquisador Dan Arnaudo da Universidade de Washington, em estudo sobre o uso de campanhas eleitorais online no Brasil:

“O caso da eleição presidencial brasileira de 2014 gera vários  achados importantes para o estudo da propaganda computacional. Ele mostra a fraqueza das leis eleitorais e penais na luta contra o uso desta tecnologia […] Também demonstra como as campanhas modernas interligam várias redes sociais em uma estratégia coerente, usando grupos do WhatsApp para levar as pessoas a redes sociais mais públicas, como Facebook e Twitter […] É muito reduzida a quantidade de dinheiro necessária para se criar grandes grupos sociais e fluxos massivos de conteúdo, ao mesmo tempo em que se engaja os usuários em plataformas, quando comparado ao tamanho do retorno desse investimento. Finalmente, esta eleição demonstra a capacidade das campanhas online persistirem até mesmo após o fim do período eleitoral […] (p. 14-15)

Além do uso durante o período eleitoral, algumas redes de bots permaneceram ativas mesmo após a eleição de 2014, a fim de fomentar determinados tópicos políticos. Nesse sentido, o uso de bots afeta não só a democracia nos períodos eleitorais, mas também influencia o debate público sobre determinados temas, e o apoio a determinados movimentos e causas.

O uso de bots pode adotar diversas formas, sendo outro exemplo interessante o que ocorreu nas eleições municipais brasileiras de 2016. Algumas campanhas de candidatos pediram para que seus apoiadores emprestassem seus perfis em redes sociais para que bots pudessem curtir e compartilhar, de forma automática, determinados conteúdos, prática que o pesquisador Dan Arnaudo chamou de “exército de ciborgues”.

Deve-se destacar que a dificuldade para se detectar o uso de bots não fica restrita somente ao órgãos de fiscalização das eleições. De 2011 a 2016 pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais criaram um bot que simulava ser uma jornalista da Globo no Twitter, o qual foi programado para disseminar determinados artigos de jornal e tweets de terceiros, além de ter a capacidade de reagir a determinadas interações humanas . A conta falsa chegou a ter 2.000 seguidores, tendo re-tweets de personalidade famosas (um apresentador do The Voice Brasil, um lutador de MMA e um locutor de futebol).

Apesar de determinados usos de bots serem nocivos à transparência e ao debate democrático, ainda sim, deve-se ter em mente que os bots são apenas uma ferramenta tecnológica, cujo benefícios ou danos advém de como estão sendo utilizadas. Um exemplo positivo da utilização de bots encontra-se no projeto Serenata de Amor, que utiliza um bot com técnicas de inteligência artificial para analisar os gastos reembolsados a parlamentares pela Cota para Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP).

O pesquisador de privacidade e proteção de dados Danilo Doneda (UERJ) alerta justamente para o fato de que uma proibição absoluta do uso de bots pode não ser o melhor caminho a se seguir, principalmente porque tal medida pode acabar por afetar usos legítimos dessa tecnologia. Assim, ele destaca que uma solução possível seria incentivar a transparência na utilização dos bots durante as eleições: identificação clara dos bots nas redes sociais; a criação, pelo TSE,  de um cadastro público de bots utilizados por candidatos; o monitorando do tráfego de dados entre bots políticos; a utilização de bots com código aberto; e tornando-se claro quem está financiando sua utilização.

Por fim, recomenda-se esse breve vídeo do jornal Deutsche Welle sobre como detectar se um perfil é ou não um bot em uma rede social.

As opiniões e perspectivas retratadas neste artigo pertencem a seus autores e não necessariamente refletem as políticas e posicionamentos oficiais do Instituto de Referência em Internet e Sociedade.

Escrito por

Pesquisador do Instituto de Referência em Internet e Sociedade, graduando em direito na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Cursou dois anos de ciência política na Universidade de Brasília. Membro do GNet. Foi membro da Clínica de Direitos Humanos (CDH) e da Assessoria Jurídica Universitária Popular (AJUP), ambos da UFMG.

Categorizado em:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *